JOSÉ C. ANTAS

 jose carlos antasNão, não é mais um europeu de futebol, é muito mais importante que isso. A seis dias das eleições europeias tenho de falar na Europa. Esse velho condomínio com vizinhos que falam várias línguas, com culturas, tradições e histórias próprias e de rivalidades muitas vezes vincadas a espada e sangue que, em prol da paz e do desenvolvimento, resolveram unir-se. Primeiro, num aspeto de âmbito comercial, mas sempre com a paz como objetivo principal, não é por acaso que alguns países fundadores como a Bélgica, Holanda, Luxemburgo (BENELUX) são centrais, de pequena dimensão e estavam saturados de serem palcos de invasões e guerras sem nada poderem fazer. Depois, com o passar do tempo, os países foram aderindo Tratado após Tratado a uma Comunidade que absorveu algumas competências dos estados-membros e de várias organizações internacionais e que passou a União Europeia.

O problema é que tudo se passou muito depressa e as bases dos alargamentos que foram em princípio estudadas e demoradas, o que dava lugar a alguma “mentalização” e consolidação, não foram contempladas de uma forma sensível quando dez novos países completamente distintos entraram de rompante na União vindos do Leste Europeu. Não que eles não tivessem direito, a sua entrada era necessária, mas o facto de ser tudo muito rápido e de se unirem países, em nome da geopolítica, como se fundissem empresas, e até no aspeto empresarial há divergências e processos de aculturação muito difíceis, quanto mais países com histórias seculares, com culturas muito distintas do ocidente e, por vezes, rivalidades tremendas. É claro que ao primeiro sinal de dificuldades, nomeadamente económicas, financeiras, desemprego, etc, logo suscitam questões como: Porque é que existem uns que estão melhor que outros? Porque é que uns estão a ganhar e outros a perder, Porque é que há desigualdades muito profundas nos mais variados aspetos (saúde, educação, segurança social, mercado de trabalho, remunerações, poder de compra, etc.). E constata-se, infelizmente, que existem desigualdades acentuadas e isso não deveria acontecer numa Europa que luta pela equidade, entreajuda, coesão social, entre os seus estados-membros. Consequentemente, este facto faz surgir uma vez mais, os movimentos cíclicos extremistas quer à direita, quer à esquerda, de teor nacionalista que podem criar divisões profundas, instabilidade e convulsões sociais muito perigosas.

Esta Europa encontra-se num processo de definição muito importante e por isso estas eleições são cada vez mais importantes. Caminhamos para uma União que terá de escolher entre o trilhar o caminho para o federalismo, ou então para uma complexa cooperação económica e financeira. Os estados-membros terão de escolher entre o abdicar de soberania em prol de uma União coesa e preponderante no espaço político mundial ou rumar para um individualismo nacional com políticas mais autónomas e soberanas. Muitos queixam-se que existe uma enorme falta de liderança (lideres genuínos e carismáticos) na Europa, mas também penso que existe uma generalizada falta de confiança entre alguns estados.

Uma coisa é certa, a UE como se encontra atualmente não é algo com que o comum cidadão se identifique e daí o afastamento das pessoas sobre este assunto. Parece que é algo distante que não nos diz respeito, pois também não nos é transmitido um sinal de solidariedade pura e sem reservas por parte dos estados-membros mais ricos aos seus parceiros que precisam de auxílio financeiro. Em contrapartida, nós achamos que os emigrantes ilegais que chegam às costas do sul de Espanha e Itália não nos dizem respeito, que a intervenção da França no Mali e na Republica Centro-Africana é com eles, que o problema que a Ucrânia está a passar é algo que deve ser resolvido por outros e que se os russos cortarem o fornecimento de gás àquela zona nós estamos bem, até porque temos um clima muito bom.

A UE tarda em assumir um papel preponderante nas decisões globais quer ao nível da paz, do ambiente, da resolução de conflitos, das missões humanitárias, de desarmamento (não proliferação de armas nucleares, biológicas, químicas), etc. Os países europeus têm de reconhecer que são pequenos em dimensão e população (mesmo a Alemanha, França e Inglaterra), que os seus recursos são reduzidos quando comparados aos EUA, Rússia, Brasil, China e que só unidos podem prevalecer como potência política e económica.    

No entanto, há a salientar o longo caminho que a União Europeia tem a percorrer para tentar mobilizar e envolver as pessoas para um projeto europeu forte, coeso, de verdadeiro compromisso com os estados-membros e seus cidadãos. A relação entre um estado-membro e a UE deveria ser como um casamento bem sucedido, onde ninguém precisa perder a sua identidade própria, mas onde tem de haver cedências de parte a parte, para que ninguém seja privilegiado ou fique lesado. É esse o equilíbrio que se procura urgentemente. É esse o sinal que tem de ser transmitido a Bruxelas ou, talvez, que Bruxelas nos tenha de transmitir.