PUB

chamusca paulo betti

PUB

cms generico

Rui Barreiro

rui barreiro

Portugal tem vindo a aumentar a sua área florestal e o peso desta fileira na economia é significativo (mais de 3% do PIB e mais de 10% das exportações), devendo acentuar-se o valor acrescentado nacional que representa. Numa altura em que o desemprego real apresenta números que nos deviam envergonhar, não olhar a floresta como um recurso essencial ao País não é aceitável.

Fala-se hoje muito do mar como recurso fundamental para Portugal mas esquece-se este recurso (a fileira florestal) que mais do que nunca precisa de ser devidamente valorizado e protegido. Está também na moda a saída do Estado e a entrada dos privados como resposta para todos os problemas; em Portugal, a floresta é essencialmente privada, logo já faltará pouco - segundo esta moda - para que se atinja a perfeição!  

Apesar de algum peso político e orçamental a florestal, no caso dos fogos, está muito mais ligada e publicamente reconhecida ao ministério da administração interna do que ao ministério da agricultura. A sua importância deveria mobilizar todo o governo, da defesa à economia passando pela educação, justiça e segurança social e, quem sabe, terminando no poder local.

Ninguém percebe porque não participam, activamente e sempre dentro da sua capacidade e com o devido enquadramento, na prevenção dos fogos florestais, os militares, os reclusos, os desempregados e os beneficiários do rendimento de inserção, entre outros atores úteis nesta tarefa primordial na defesa da floresta. Face aos últimos 20 anos de fogos florestais não fará sentido criar uma estrutura supra ministerial, que mobilize meios e apresente orçamentos e planos de actividades plurianuais para a prevenção?

O fogo acontece independentemente da vontade do homem apesar da espécie humana ser a única fazedora de fogo. Os fogos naturais influenciaram a evolução dos diferentes ecossistemas ao longo da história da Terra. As evidências disponíveis mostram que os seres humanos modernos podem aumentar ou diminuir os níveis da actividade natural do fogo através da sua intervenção na floresta em particular e nos ecossistemas em geral. Isto é, o homem não é apenas responsável pela ação directa (negligente ou intencional) mas a sua intervenção cria maiores ou menores condições para que o fogo aconteça. Alguns dos regimes contemporâneos de fogos causam prejuízos económicos substanciais, degradação dos serviços dos ecossistemas, perdas de vidas – o que não devia acontecer-, entre outros prejuízos irreparáveis. Estes acontecimentos ajudam a dar ao público uma perspectiva negativa do fogo apesar da necessidade de queima para sustentar alguns ecossistemas. Os gases com efeito estufa que aumentam o calor e as mudanças no ciclo hidrológico podem aumentar a ocorrência de grandes e severos fogos com um potencial significativo de feedbacks para o sistema terrestre (Bowman, D., et al, 2011). Temos que entender que o fogo é um factor natural do ecossistema florestal, como o são a precipitação anual e a sua distribuição sazonal ou o declive do solo e a sua capacidade de reter matéria orgânica.

Os incêndios florestais constituem a principal ameaça à manutenção e sustentabilidade da floresta, sendo o maior risco percebido no sector florestal. A grande maioria dos incêndios em Portugal (97%) tem por base actividades e comportamentos humanos.

A gestão sustentável da floresta e o combate ao abandono devem também ser percebidas como armas a utilizar na diminuição dos fogos florestais, numa floresta essencialmente privada como é a floresta portuguesa. Na sequência dos incêndios florestais graves de 2003 e 2005 foram efectuados vários estudos de onde resultaram orientações estratégicas para a floresta portuguesa, considerada como um dos principais recursos endógenos do país

No que respeita à Redução de combustível, na actual situação, em que se verifica uma cada vez maior tendência para o despovoamento do interior e para o abandono das áreas agrícolas e florestais, torna-se necessária uma aposta vigorosa na intervenção no âmbito da prevenção estrutural, por via da redução de combustíveis.

A temática do aquecimento global impõe, por outro lado, objectivos de mitigação das alterações climáticas que se traduzem pela necessidade de reduzir emissões. Esta actuação permite articular a prática da prevenção do fogo florestal em Portugal com a eficiência global do combate às alterações climáticas, designadamente com a utilização desse combustível florestal para aproveitamentos energéticos.

O fogo técnico, que usado em condições de baixa perigosidade renova as pastagens e as charnecas fazendo-as regressar ao estrato herbáceo, reaparece no contexto actual como um meio expedito e muito económico de gerir a carga de combustível em grandes extensões. A roça de mato por meios mecânicos continua a ser efectuada, designadamente pelas equipas de sapadores florestais, mas é dispendiosa- mas sempre mais barata que o combate- e pode ser preferencialmente aplicada na gestão de pequenas áreas, na criação de estruturas de prevenção estrutural como faixas de gestão de combustível e linhas corta-fogo ou, ainda, na vizinhança de agregados populacionais. A prática de fogo controlado, o fogo técnico de Inverno/Primavera que consome a baixa temperatura os matos dando origem a uma nova sucessão de vegetação, deve ser incrementada.

Tendo presente a questão das emissões sujeitas à regulação por meio do compromisso conjunto europeu para o cumprimento do Protocolo de Quioto, a capacidade de sumidouro de carbono da floresta portuguesa pode ficar seriamente comprometida (o sector florestal é o único sector da economia que apresenta ganhos anuais líquidos de CO2, seguido de muito longe pelas pastagens permanentes).

A relação dos incêndios florestais com os compromissos de mitigação das Alterações Climáticas apresenta a vantagem de permitir elucidar um custo social, que inclusivamente tem incidência orçamental, porque existe uma métrica internacional estabelecida e responsabilidade do Estado no seu cumprimento. Talvez valesse a pena fazer estas contas quando se fala de montantes financeiros, de poupança e de custos.

Reconhecidamente, os incêndios florestais são vistos como a maior ameaça à Floresta mas continuamos a ter uma época alta e uma época baixa no que diz respeito às actividades de sensibilização. As alterações climáticas irão obrigar-nos a mudar. O mesmo se passa com a prevenção, isto é, este pilar essencial é o menos conhecido e o menos reconhecido na afectação de meios humanos e materiais. Os recursos financeiros são escassos e numa floresta essencialmente privada continuam a ser os meios de combate e de primeira intervenção a ter um peso, exagerado na minha opinião, diferenciado no sistema de defesa da floresta contra incêndios.

As atitudes enquanto cidadãos podem ajudar a melhorar o sistema mas compete ao Estado Central, às Autarquias Locais e às Associações de Produtores Florestais um papel mais activo no trabalho de promover uma floresta mais resiliente ao fogo.

O trabalho por fazer é, ainda, muito. Julgo que seria importante que as instituições de financiamento da investigação pudessem olhar a protecção da floresta, em geral, e a prevenção dos fogos florestais, em particular, com mais atenção, permitindo que se estudasse o fenómeno e que se retirassem conclusões, aprendendo com o que se faz em países com floresta e clima semelhantes ao português. Não basta reconhecer que a Floresta é uma riqueza nacional. É preciso perpetuar essa realidade. Esta é a boa altura para lembrar!

 

Rui Pedro de Sousa Barreiro



PUB

PUB

PUB

Rede Regional

Slide backgroundSlide thumbnail

PUB

Quem está Online?

Temos 267 visitantes e 0 membros em linha