O peixe-gato-europeu, mais conhecido por siluro, é um problema ambiental real, espalhado por rios e albufeiras de norte a sul do país, e cujas populações precisam de ser controladas com urgência, sob pena de provocar danos ecológicos ainda mais devastadores nos ecossistemas ribeirinhos.
Este é, em suma, o alerta lançado pelo projeto “Megapredator”, que arrancou em 2022, e cujas conclusões foram apresentadas esta quinta-feira, 26 de junho, na Escola Superior Agrária de Santarém (ESAS), uma das entidades envolvidas neste estudo que durou cerca de três anos e meio.
“Agora temos a certeza que precisamos de agir, e quanto mais cedo melhor”, disse à Rede Regional Filipe Ribeiro, investigador do MARE e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e um dos coordenadores do “Megapredator”, juntamento com o professor João Gago, da ESAS do Politécnico de Santarém.
Conclusões são alarmantes
No âmbito do projeto, foram analisados mais de 400 peixes-gato-europeus, capturados tanto em rios como em albufeiras; do conteúdo do estômago, é possível perceber que este predador, que pode viver até aos 70 anos e não tem inimigos naturais, “não é esquisito, come basicamente o que lhe aparece pela frente”, explica Filipe Ribeiro.
“Os impactos a nível das espécies nativas são evidentes”, acrescenta o investigador, sobretudo quando se tratam de peixes muito apreciados pelos pescadores lúdicos, como barbos, carpas, pimpões, carpas, achigã ou bogas, entre muitas outras.
“Só no Rio Tejo, encontrámos siluros que tinham comido 23 espécies diferentes”, exemplifica Filipe Ribeiro, acrescentando que um peixe-gato-europeu de 2 metros e 60 quilos, como o maior espécime pescado em Portugal, pode consumir cerca de 360 quilos de outros peixes, anualmente.
Além disso, o peixe-gato-europeu, que foi detetado pela primeira vez no rio Tejo em 2006, tem uma enorme capacidade reprodutora, em que uma fêmea consegue libertar milhares de ovócitos durante vários meses do ano.

Soluções exigem o envolvimento de todos os atores
O “Megapredator” aponta vários caminhos a seguir, entre os quais a criação de um programa especial de remoção do siluro por parte do Estado, e que envolvesse não só os seus diversos organismos ligados à proteção ambiental (INCN, AR-H, APA, SEPNA, entre outros), mas também os pescadores profissionais.
“Esse seria o objetivo número um, se fosse concretizado”, diz Filipe Ribeiro, mas há um longo caminho a percorrer, sobretudo na sensibilização e envolvimento dos interessados.
Este responsável explica que o estudo nacional feito no âmbito do projeto permitiu concluir que “90% dos pescadores reconhecem o impacto negativo nos ecossistemas e sobre os peixes nativos, mas muitos, sobretudo os pescadores lúdicos, voltam a devolver o siluro à natureza, depois de o capturar”, o que até é ilegal.
Para os pescadores profissionais, a solução passaria por receber alguma compensação económica por retirá-los do leito dos rios, ou pela valorização gastronómica desta espécie, que é comestível e pode ser servida na restauração.
“Já há restaurantes a servir o siluro, que até é um peixe com poucas espinhas e fácil de trabalhar a nível da cozinha”, explica o investigador, acrescentando que esta sessão terminou com um almoço confecionado pelo chef Rodrigo Castelo, que serve o siluro no seu restaurante em Santarém.
Mas há um longo trabalho de sensibilização a fazer junto dos pescadores, sublinha Filipe Ribeiro, explicando que, dos cerca de 40 pescadores profissionais e lúdico recreativos convidados a participar na sessão de encerramento e apresentação das conclusões do projeto, compareceram apenas dois.
“Queremos trabalhar com eles, mas têm que perceber que as evidências científicas vão, muitas vezes, contra a sua própria perceção do problema”, afirma o investigador, explicando que “esta ameaça direta às espécies nativas pode ter efeitos muito graves daqui a 10 anos”.





























