Foi a sua própria experiência pessoal, nomeadamente 10 anos de violência doméstica, enfrentando múltiplas formas de abuso e falhas sistémicas nos apoios, que levou Cecília Aranha a dar um passo em frente e criar a “Nova Fénix”, uma associação sem fins lucrativos fundada para apoiar vítimas de violência doméstica.
Decidida a quebrar o ciclo de violência que afeta muitas mulheres, mas também crianças e idosos, Cecília aproveitou a sua experiência para criar protocolos práticos e simples que consigam cobrir as “falhas” da rede de apoio existente, sem substituir entidades formais, atuando como “mais um braço” de apoio humanizado antes, durante e após a denúncia.
“A violência doméstica tem várias formas e eu posso dizer que passei por todas – física, psicológica e sexual – e vi-me com muitas dificuldades, em diversos aspetos. E este projeto nasceu para nós estarmos lá nas falhas, sermos mais um braço neste combate e também na sensibilização”, explica Cecília.
O projeto surgiu em dezembro do ano passo e em março deste ano foi criada a Nova Fénix – Associação de apoio a Vítimas de Violência doméstica. Além de fundadora, Cecília faz a coordenação dos núcleos e dá formação às equipas de voluntários, só admitidos após uma avaliação rigorosa.
Na Nova Fénix, o apoio é contínuo e sem julgamento, mesmo quando a vítima regressa ao agressor. Reconhece-se que a saída é um passo grande que desencadeia novas dúvidas e solidão, especialmente nos primeiros seis meses, havendo tendência ao recuo por falta de suporte. O objetivo é caminhar com a vítima, oferecendo suporte psicológico e emocional e reduzindo a sensação de isolamento.
“A vítima precisa de ter um sítio onde possa ir falar com alguém e saber que não é julgada. Alguém que não faça perguntas desconfortáveis”, diz Cecília, acrescentando que uma das maiores preocupações que sentiu ao longo dos 10 anos em que foi alvo de violência doméstica foi o facto de ter crianças e a insegurança e instabilidade que isso provocava.
“Lembro-me de, antes de me separar, fingir muitas vezes que estava tudo bem. Passei por espancamentos na gravidez, e, quando elas nasceram, ainda estava na maternidade, e as próprias enfermeiras disseram-me para estar calada, se não ficava sem as meninas”, recorda.
“Temos que manter a vítima em segurança, recolher os dados muito rapidamente, contactar a PSP ou a GNR local para salvaguardar a vítima”, acrescenta.
Cecília chama também a atenção para o que se passa com os mais jovens, em que, muitas vezes, há um controlo disfarçado de cuidado, frequentemente com exigência de presença e mensagens manipuladoras, reforçando narrativas tóxicas e a ideia de submissão. Defende a sensibilização com linguagem acessível para todas as idades, focando sinais de alerta e o carácter de crime público da violência doméstica.
Para os casos de violência doméstica que identifica, a associação tem um kit de emergência, feito à base de donativos de particulares e empresas, que inclui bens essenciais (água, medicação, quando aplicável, roupa íntima nova e muda de roupa, higiene pessoal, fraldas para bebés e seniores, toalhetes, e alimentos prontos como leite enlatado).
MUITAS PORTAS FECHADAS
Desde o início do ano que Cecília tenta estabelecer parcerias, conquistar apoios e, acima de tudo, arranjar uma sede, onde possa centralizar toda a operação e receber as vítimas. Entre outras coisas, a ausência de sede limita o armazenamento de bens, a confidencialidade e privacidade dos atendimentos.
A coordenador da Nova Fénix diz que já enviou mais de 200 e-mails mas a única resposta efetiva veio da APAV. Toda a restante abertura institucional, em termos de autarquias, tem sido difícil. “A sede é elemento crítico para garantir conversas privadas, acolhimento sem julgamento e triagens seguras. O município de Santarém recusou rapidamente, por telefone, a possibilidade de cedência de um espaço para sede”, exemplifica.
“Nós não pedimos dinheiro. O que pretendemos é uma sede, um espaço fechado, só nosso, nem que fosse pequeno”, explica Cecília, acrescentando que a câmara “era aqui um parceiro fundamental também para abrir as portas de outras entidades e instituições, como o hospital”. A prioridade é apoio institucional e logístico (sede, espaços e protocolos) que permitam outras portas.
DE SANTARÉM PARA O PAÍS
A Nova Fénix nasceu em Santarém, mas já está a crescer para outras zonas. Há núcleos em preparação em Ourém (espaço já identificado) e Amadora, priorizando concelhos e distritos com taxas elevadas de violência doméstica. É o caso de Ourém, Tomar e Ferreira do Zêzere, por exemplo, onde existe uma subnotificação e dados nem sempre públicos.
A responsável da associação lamenta também a resistência das escolas e professores a intervenções comportamentais e o acesso parental limitado, pelo que a estratégia passa por criar grupos juvenis e fazer sensibilização fora do ambiente escolar.
A divulgação nas redes sociais, o boca a boca e a distribuição de materiais simples tem sido a forma de fazer chegar a associação ao maior número de pessoas, mas a falta de sede duplica o esforço logístico e limita o armazenamento. Nas redes sociais, a página oferece um botão de WhatsApp e link para doar produtos, com lista de necessidades e opções de recolha e entrega. Tem também um formulário específico para sinalização por terceiros.
A realização de eventos comunitários para mobilização e sensibilização é outra das apostas da associação. A 13 de junho, no campo de futebol da Póvoa da Isenta, a partir das 15h00, haverá uma ação de recolha de bens para kits, atividades gratuitas (insufláveis, pinturas) e apresentação da associação. Em planeamento está também uma caminhada para 1 de agosto, com recolha de bens, piquenique e conversa sobre sinais de alerta e vigilância comunitária.
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