Depois de ter desmaiado quatro vezes em casa e de estar a perder sangue em vómitos e nas fezes, Luís Dinis deu entrada nas urgências do Hospital de Santarém, onde lhe foi alegadamente mal diagnosticada uma congestão por ter comido morcela na sopa.
O homem, de 57 anos, morreu dois dias depois no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, para onde foi transportado em estado grave devido ao agravar do rebentamento de uma úlcera no duodeno, que não foi detetada em Santarém.
A família já apresentou queixa por negligência à Inspeção-Geral de Saúde e à Ordem dos Médicos, e expôs o caso ao Conselho de Administração do Hospital de Santarém.
Em causa está a atuação do médico do INEM da equipa da VMER que foi a casa de Luís Dinis quando este se sentiu mal, ainda na noite de 9 de janeiro último, e do clínico que o acompanhou nas urgências do hospital, acusados de não terem prestado a devida atenção ao caso, segundo os familiares.
"Ao vê-lo naquele estado de agonia, se tivessem feito os exames corretos, o meu marido estava vivo", disse à Rede Regional a viúva, Fátima Costa, acrescentando que "eles pura e simplesmente não quiseram saber do meu marido para nada".
Um longo calvário no hospital para nada
Luís Dinis deu entrada nas urgências do hospital de Santarém no dia 10 de janeiro, pouco antes das 2 horas da manhã; recebeu uma pulseira amarela na triagem, segundo a queixa, a que a Rede Regional teve acesso, e foi preciso a família reclamar para ser visto por um médico, duas horas depois.
Às 5h30 da madrugada, a viúva exigiu falar com o médico, a quem tentou alertar para o estado de sofrimento do homem e explicar os seus antecedentes clínicos.
O clínico alvo das queixas mandou-a para casa, prometendo que ia realizar mais exames.
Fátima Costa veio embora e regressou ao hospital quatro horas depois, a meio da manhã, para ir buscar o marido, que continuava "deitado numa maca no corredor da urgência, muito debilitado e com muito frio".
Luís Dinis disse à mulher que ninguém mais o viu durante o período em que se ausentou; Natália Costa quis falar novamente com o médico, mas ele "já tinha saído", segundo o que é referido na queixa.
Na sua residência, o seu estado de saúde só se agravou, e Luís Dinis acabou por regressar ao hospital de Santarém na noite de sábado, com hemorragias constantes.
A equipa médica que estava de serviço apercebeu-se então que já se tratava de um caso urgente e enviou o homem para o Hospital de Santa Maria.
Foi nesta unidade hospitalar que disseram à família que o homem nunca deveria ter sido mandado para casa no primeiro episódio de urgência, mas sim encaminhado para Lisboa para realizar os exames adequados para determinar o seu estado de saúde.
Às 6h30 da manhã, entrou em convulsão e foi levado de imediato para o bloco operatório, segundo relata a família, mas era tarde demais, pois acabou por ter uma paragem cardiorrespiratória que resultou na sua morte.
Firmes na ideia de que Luís Dinis teria sido salvo em Santarém, a família escreve na queixa que "não se admite que o nosso sistema de saúde esteja desta maneira e que se contratem pessoas deste tipo, sem qualquer formação pessoal, frias, secas, em que o principal objetivo é cumprir calendário, receber as horas e não lutar pela vida humana, por quem sofre".
Médicos visados são prestadores de serviços
Contatado pela Rede Regional, o Conselho de Administração do Hospital de Santarém afirma que o processo está em averiguações a partir da denúncia apresentada pelos familiares.
Os dois médicos acusados de negligência não pertencem ao quadro do Hospital, são prestadores de serviços, um através do INEM e o segundo através de uma empresa que coloca recursos humanos no serviço de urgência.































