Ter, 16 Abril 2024

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Carolina Coelho: Não mudo o mundo, mudo pequenos mundos

Aos 24 anos, uma scalabitana licenciada em farmácia decidiu rumar a África, como voluntária numa missão humanitária.

Aos 24 anos, uma jovem farmacêutica de Santarém decidiu abraçar o voluntariado numa missão humanitária em Manjacaze, Moçambique, onde luta diariamente contra dois dramas profundos: a miséria e a fome das crianças e a infecção com o HIV/SIDA de que sofrem parte das suas mães.

Num ambiente social e económico onde o nada parece ser a única coisa que existe em abundância, Carolina Coelho ajudou a lançar uma campanha de solidariedade internacional e descobriu um povo a quem a pobreza nunca foi capaz de roubar a alegria.

 

 

O que leva uma jovem licenciada em farmácia a embarcar para África, numa missão humanitária?

Desde pequena que sentia este desejo de passar fronteiras e ir ao serviço do outro. Mas sabia que, antes de o fazer, fazia mais sentido começar em casa, na minha cidade e no meu país. Em Portugal, comecei a fazer voluntariado ainda adolescente no Hospital de Santarém, na oncologia, e também através de diversas actividades dos escuteiros, a que estive ligada até aos 18 anos. Na faculdade, participei duas vezes no projecto “Missão País” e, após terminar o curso, senti que seria a altura certa para pôr a minha vocação como farmacêutica ao serviço daqueles em que o pouco toca o quase nada.

Vi que esta seria a altura ideal, antes de entrar no mercado de trabalho, para abraçar uma missão de três meses. Sinto que fui guiada não só por um sonho mas por uma vontade de fazer a diferença na vida de quem nada tem. Sei que não mudo o mundo, mas aqui mudam-se pequenos mundos. E foi essa a vontade e desejo que me guiou até aqui.

Como surgiu esta oportunidade?

Esta oportunidade surgiu de uma caminhada feita no “Grupo Missão Mundo” (GMM), do qual faço parte há cerca de um ano. O GMM é um grupo de Leigos Voluntários Missionários que nasceu no seio da Congregação Portuguesa das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres, e trabalha em conjunto com as irmãs nas suas missões em Portugal e ad gentes, no México, Timor e Moçambique. Após um percurso de preparação, delineámos em grupo aquilo que viria a ser a minha missão: o “Projecto de Evangelização para a Saúde”, na área de HIV/SIDA. O projecto decorre durante seis meses e conta comigo nos primeiros três, de Fevereiro a Abril. Depois, outra voluntária farmacêutica que dará continuidade ao trabalho iniciado, de Abril a Julho.

Concretamente, que tipo de ajuda está a desenvolver?

O “Evangelização para a Saúde” foi idealizado tendo em conta a difícil realidade de Moçambique a nível de HIV/SIDA. Esta doença anda de braços dados com a fome e mata inúmeras pessoas todos os dias, na maioria crianças. O projecto visa sensibilizar a população de Manjacaze em relação à transmissão, tratamento e formas de prevenção da transmissão do HIV. A vila de Manjacaze pertence a Gaza, a província de Moçambique com maior número de infectados e de mortes por esta doença.

O que dificulta ainda mais o seu trabalho?

É um tema muito delicado de abordar com a população, uma vez que é uma doença que ninguém quer assumir que tem, e na maioria das vezes nem sabe que tem e não tem acesso a tratamento. Neste contexto, o meu trabalho centra-se na realização de palestras e formações aos jovens e às mães internadas no Centro Nutricional do Centro Social Nossa Senhora de Fátima, a cargo das Irmãs Concepcionistas. O centro nutricional trabalha em cooperação com o hospital distrital de Manjacaze e recebe crianças desnutridas e com outras doenças. Aqui faz-se a reabilitação física e nutricional das crianças e das mães, e também se dá formação às mães sobre nutrição, higiene da criança e HIV/SIDA. A este centro acorrem muitas crianças na sua maioria seropositivas, com desnutrição severa, e com todas as doenças secundárias de base como tuberculose, broncopneumonia, pelagra, eczemas, entre outros. Aqui tenho sido uma espécie de farmacêutica, pseudo-enfermeira e pseudo-médica; faço o controlo da evolução clínica da criança, peso, medicação, faço os curativos necessários e acompanho a consulta médica semanal. No fundo é um trabalho em equipa, onde tenho aprendido muito não só em aspectos humanos mas também técnicos.

Qual foi a sua primeira impressão, ao chegar a Manjacaze?

Eu já estava um pouco à espera daquilo que iria encontrar: muita pobreza mas, incrivelmente, muita alegria! Este povo dá-me continuamente lições de vida, pois alegra-se e faz a festa com pouco ou nada, e tem uma paciência inesgotável. Aqui o tempo é diferente, o ritmo é outro, bem mais calmo. A natureza, essa é de cortar a respiração, o céu parece que toca a terra, e o cheiro a terra molhada é sem palavras.

Como é o seu dia-a-dia? As diferenças em relação ao quotidiano a que estava habituada em Portugal devem ser enormes…

O dia-a-dia é bem mais calmo, e sem a correria que caracteriza Lisboa. O dia começa bem cedo pelas 6h30 da manhã com a ida ao centro para fazer o controlo do peso e observação das crianças. O resto da manhã é passado a preparar e a dar formações, dou também explicações de química e português a algumas irmãs moçambicanas e colaboro na Mesa de São Nicolau, que é outro dos projectos da missão das irmãs cá em Manjacaze. Nesta mesa, servem-se almoços às crianças mais desfavorecidas, muitas delas órfãs, e que frequentam as escolas da vila. Aqui vê-se a fome de perto, ao ver uma criança comer rapidamente a comida que tem no prato. Muitas vezes, é a única refeição que têm no dia. E penso como é que crianças com fome podem ter aproveitamento escolar…

Na Mesa de São Nicolau, também fazemos actividades lúdicas e pedagógicas com as crianças, onde através de brincadeiras e actividades de estudo procuramos ajudar na sua aprendizagem. Para além disto, colaboro também na dinamização da Biblioteca Samora Machel, criada e inaugurada no ano passado através do projecto “Juntos na Hi Funda – Juntos Aprendemos”, do GMM, no qual através de uma recolha de livros e material didáctico e escolar que o grupo enviou por contentor, procuramos combater a pobreza através da educação. À tarde, tenho missa na paróquia seguido de um pequeno convívio com algumas crianças que vêm da escola. São dias muitas vezes calmos mas também muito intensos, onde muitas vezes é difícil explicar por palavras o que se vê e o que se sente. Mas têm sido dias únicos e de grande felicidade!

Quantas pessoas estão envolvidas na missão?

Actualmente a trabalhar no Centro Nutricional estou eu, outra voluntária do GMM na Biblioteca e uma voluntária americana do Corpo da Paz que conheci cá em Manjacaze e que tem formação em Saúde Pública. É sempre um trabalho de equipa. Temos trabalhado em conjunto nas formações no centro e com os jovens e tem sido uma experiência fantástica e enriquecedora! Em Abril chegará outra voluntária do GMM que trabalhará connosco e dará continuidade ao projecto.

Quanto tempo ainda vai estar em Moçambique?

A minha missão tem a duração de três meses, com início em Fevereiro e fim no final de Abril. Falta cerca de um mês para voltar para Portugal.

Se surgir outra oportunidade, pensa repetir a experiência? Talvez até noutro local, noutro país?

Espero e desejo que possam surgir outras oportunidades para repetir esta experiência. Ainda não parti de Moçambique, mas já sinto saudades! Não sei explicar porquê, mas sinto esta terra como minha casa. Muitas vezes digo que não fui eu que escolhi Moçambique mas foi este país que me escolheu e me acolheu de braços abertos. Espero voltar muito em breve e também gostaria de repetir a experiência noutros locais como Timor, México e Índia.

A Carolina que regressará é uma Carolina diferente da que embarcou para África?

Sinto que não sou a mesma Carolina, mas não sei explicar bem o porquê. Sei que esta experiência marcará para sempre a minha vida de uma forma especial, tornando-me numa pessoa mais consciente da sua responsabilidade social. Para mim, não faz sentido viver sem servir o outro que mais precisa, e ter a oportunidade de colocar a minha vocação como profissional de saúde ao serviço da vida enche-me de uma grande e diferente felicidade.

Penso que é aqui que reside o valor do voluntariado e todos os que o fazem partilham deste sentimento: o de procurar fazer-se um com outro na sua alegria e na sua dor e juntos construir um amanhã mais sorridente. Sei que aos 20 anos queremos sempre mudar o mundo, mas aqui pude ter a certeza que não é apenas um sonho, que se pode mesmo mudar pequenos mundos, basta ter a coragem de dar o seu sim e colocar-se ao serviço, pondo amor em tudo o que se faz. Como diz a Madre Isabel, fundadora das Irmãs Concepcionistas ao Serviço dos Pobres: “é tão bom dar-se quando se ama!

 

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