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SAMUEL PIMENTA

samuel pimentaNenhuma voz, nenhum gesto, nem um silêncio se ergueu diante da morte na arena. Apenas uma poça de sangue no chão testemunha o massacre. Uma poça de sangue grita uma vida e ninguém parece ouvir. Houve quem aplaudisse de pé, houve quem risse e cantasse, houve quem aclamasse os heróis. E nem um olhar daquela arena repleta se desviou para enfrentar o grito que ecoa do sangue no chão. Uma poça de sangue no chão denuncia mais uma morte e o único destino que lhe reservam é a vassoura, para que a limpem, para que a apaguem. Nenhuma morte se apaga com uma varredela e nenhum grito se abafa pela mera vontade. Mesmo que limpem a poça de sangue no chão, a poça de sangue no chão continuará a testemunhar a morte de mais um touro. Mais um touro morreu sob o golpe dos aplausos e a desumanidade das farpas.

A nobreza de um touro não está na forma como é assassinado na arena, está no perfil negro que emerge dos campos dourados pelo Verão. É um animal imponente, possante, que me habituei a ver nos campos da Lezíria, “livre”. Ali é criado para que as ganadarias o sirvam como divertimento a uma multidão que se banqueteia com o derramamento de sangue e o fim da vida de um ser vivo. E a multidão ainda aplaude, a multidão ainda ovaciona o matador de pé, enquanto a poça de sangue ali fica, no chão, a dar testemunho de mais uma vida roubada ao mundo por mãos humanas. De mais uma morte absurda que será varrida e coberta pelo ocre do chão.

Simbolicamente, a tourada é a celebração de um sacrifício e da violência como condição da virilidade, da masculinidade e da força. É herdeira de um modelo civilizacional que ainda acredita que pode possuir tudo o que existe no planeta como se homens e mulheres fossem uma raça superior face às restantes formas de vida. Nenhuma vida é dona de outra vida, a vida não tem donos. Cada humano que habita a Terra tem o dever de zelar pelo bem-maior de todo o planeta em prol da continuidade da vida que o sustém. Essa é a nova lei! Promover uma prática que celebra o sofrimento, a tortura e a morte de animais é alinhar com um modelo de civilização obsoleto e condenado à extinção. A tourada é uma prática bárbara que viola o direito à vida em nome do entretenimento e os legisladores que a apoiam ou que simplesmente decidem nada fazer são cúmplices de uma das mais vis formas de matar animais e de bestificar pessoas. São esses os padrões que nos ancoram no passado e não nos permitem avançar. Há que aboli-los! Quero viver num mundo virado para o futuro, um mundo que promova práticas culturais que nos levem à reflexão e ao questionamento, à descoberta de novas linguagens e à criação de diálogos interculturais. Práticas que nos despertem para a verdadeira beleza e nos coloquem em comunhão com a vida, em vez de alimentarem lógicas que nos separam cada vez mais. É assim que a humanidade evolui e prospera, é assim que a humanidade vive em equilíbrio com o planeta.

Nunca assisti a uma tourada, recuso-me. A tourada não me representa enquanto ribatejano e enquanto português. A tourada não me representa enquanto ser humano. Envergonha-me.

Alcanhões, 24 de Setembro de 2014 – 13h21m



Comentários   

+1 #7 Vitor Franco 03-10-2014 10:00
É bom ver que não estamos sozinhos quando a razão interpela a "tradição".
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+3 #6 Sclouro 30-09-2014 09:46
Samuel, estou 100% de acordo com o seu testemunho. Sou também ribatejana e a tourada também a mim não me representa. É um espectáculo bárbaro comparável, no tempo dos romanos, ao colocar pessoas nas arenas para os leões as devorarem ou aos gladiadores. Também na altura era um espectáculo dentro da "legalidade" não deixando por isso de ser bárbaro. A forma como tratamos outros seres demonstra o nosso carácter e o que se tem visto não diz nada de bonito a favor da Humanidade que, na sua arrogância, se acha superior aos outros achando, que pode fazer o que quer. Isto há-de acabar, tenho a certeza mas demora mais do que o desejado. Enfim...
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+4 #5 MARIA 29-09-2014 02:53
lAMENANDO O QUE ACONTECEU AO SR SEU FALECIDO PAI NAO POSSO CONTUDO CONCORDAR COM O QUE DIZ, NAO SE PODE DEIXAR AO LIVRE ARBÍTRIO A CRUELDADE QUE É FEITA SOBRE QUALQUER ANIMAL, HUMANO OU NÃO, CASO CONTRARIO SE ME APETECESSE PAGAR PARA VER MATAR OU VIOLAR PUBLICAMENTE OU EM PRIVADO PODERIA FAZE-LO? NÃOOOO, NAO PODIA. NO CASO DA TOURADA QUE NAO É PROIBIDA POR LEI, NAO DEVIA SER ESPECTÁCULO PARA NINGUEM A TORTURA AO VIVO E A CORES DE OUTRO SER. CABE AOS ACTIVISTAS E AOS SENSÍVEIS A CRUELDADES TENTAR DISSUADIR TAIS PRATICAS... NAS SITUAÇOES DE PROIBIÇÃO DEVERIA SER CUMPRIDA E APLICADA A LEI, VEJA-SE A ENTRADA DE CRIANÇAS, A MORTE DO TOURO EM SITUAÇÃO DE DOR, VIOLÊNCIA, FALTA DE RESPEITO E ATENTADO A DIGNIDADE DO ANIMAL...
AGRADEÇO QUE NAO ME RESPONDA AO COMENTARIO. OBRIGADA.
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-10 #4 Tavares 29-09-2014 00:29
Penso que o direito à tortura faz parte da auto-determinaç ão de cada um. Tal como o direito à vida. o direito à tortura de inocentes, a violência contra animais humanos e não humanos, e a morte, deveria estar consagrados na Constituição da República. Por isso, eu apoio o anónimo Marques no seu direito a assistir a esse lindo espectáculo que é a tourada, pois cada qual decide o que fazer com o seu dinheiro. Eu gosto de o gastar com adolescentes, e ninguém tem nada com isso, pois é a minha liberdade individual.
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+6 #3 luzia ilza ferreira 29-09-2014 00:00
Toda violência tem a mesma natureza e é igualmente repugnante, igualmente inaceitável. Animais superiores, mamíferos, são seres sencientes, sentem dor, frio, fome, alegria, tristeza, etc, como nós mesmos. Esse tipo de "espetáculo" na verdade é uma cena de barbárie, totalmente incompatível com os níveis de civilidade que os povos desenvolvidos já alcançaram na Terra. É horrível, é vergonhoso, é injustificável, é degradante, principalmente para um país europeu! Nada justifica essa bestialidade!
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+4 #2 Filipa 28-09-2014 23:38
Os grandes problemas da humanidade decorrem da falta de humanidade para com tudo o que nos rodeia, pessoas, animais, o próprio planeta. A liberdade não existe na tourada - para o touro. Portanto, apelar à liberdade nesse contexto é falacioso. Quem gosta de ver sofrer outros seres não é verdadeiramente humano, é psicopata (aliás, é quase a definição de psicopatia, a falta de empatia). Uma pessoa que empatiza com outros seres não afasta o olhar da pobreza ou da injustiça. O ponto de vista de quem é humano é sempre humano. Não é humano só às vezes.
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-17 #1 Marques 28-09-2014 20:10
Parece que esse comentário tão bem escrito desvincula claramento os grandes problemas da humanidade que passam ao lado deste Samuel.Sou filho de um grande toureiro, de um grande homem e de um grande pai que sempre me ensinou a respeitar o proximo e as opiniões agora não posso aceitar que escrevam injustiças dessas. O futuro que o preocupa deverá ser do respeito e da liberdade de escolha por isso meta a sua casaca e olhe para a pobreza, para a crimminalidade e acorde para a vida deixando os outros pagarem para ver o que mais gostam e ver o espectaculo que entendem ver...Essa minoria que tanto apregoa direitos á uns anos atrás provocou o meu falecido pai, nas caldas, ao ponto de ter um enfarte e após 3 dias falecer no hospital de santarem por isso espero que não se atravessem no meu caminho nas muitas corridas que vou assistir.
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