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Nélson Carvalho, consultor

O Ribatejo tem várias imagens / marcas territoriais, vários signos de identidade, tradições, história, … A imagem / marca de território agrícola é uma delas.

Não admira portanto que sempre que se aborde um acto eleitoral (para as legislativas, sobretudo) nas estruturas regionais dos partidos políticos se pergunte sempre “ … e o que lá dizemos, para a agricultura?” quando se elabora o famoso manifesto eleitoral. (Eu nunca gostei de manifestos eleitorais, preferi sempre a figura do plano estratégico: visão, grandes estratégias, objectivos gerais e objectivos operacionais, acções, …).

Mas vamos à questão. Inevitavelmente acaba por surgir a questão: “e o que dizemos para a agricultura? Afinal o Ribatejo é um distrito agrícola …”

Na generalidade é uma chamada de atenção justa. É preciso pensar politicamente a agricultura e não entregá-la ao “pensamento “ de feiras, mercados e exposições, entre um copo e um acepipe e saudações e beijinhos …

Sendo todavia tal preocupação uma preocupação justa, o modo de colocar a questão não o é e constitui mesmo uma limitação e um obstáculo a uma clara definição de políticas de desenvolvimento territorial. 

Uma visão adequada da agricultura nas nossas sociedades não pode ser uma visão da agricultura e para a agricultura, “tout court”.

As sociedades actuais constituem e assentam em modos de vida e praxis sociais que obrigam a redefinir as coisas e a perspectivá-las diferentemente. Olhemos, por exemplo, para o modo como se habita e cozinha, destino sempre presente dos produtos agrícolas. Como mudou de há umas décadas para agora? Como evoluiu o tempo que se passa na cozinha e em torno de quê fazendo o quê? Uma sociologia da cozinha permitir-nos-á pensar melhor o futuro da actividade agrícola.

Registo duas mudanças fundamentais:

a) passa-se hoje muito menos tempo na cozinha que há umas décadas.

b) o centro da cozinha deixou de ser o fogão e passou a ser a dupla frigorífico /micro-ondas.

Quer dizer:

- Não se quer passar tanto tempo a preparara cozinhados, quer-se pré-preparados.

- Os pré-preparados exigem apenas conservação e aquecimento.

Quando se pensa nos produtos agrícolas devemos pensar: como apontá-los directamente à mesa dos consumidores, como transformá-los em pré-preparados para vender melhor (mais valor) e usar melhor (maior atractividade) ?

Mudamos de perspectiva: em vez de pensar em produção e produtos  agrícolas pensamos em actividade agro-alimentar: produzir para transformar para consumir.

Sendo que a marca agrícola é uma marca do Ribatejo, o Ribatejo não pode aí permanecer. Precisa ir mais longe, precisa ter mais ambição, precisa aumentar a cadeia de valor, precisa de se afirmar , de modo mais claro,  um território agro-alimentar.  Desenvolver conhecimento e tecnologias em áreas chave: Inventar novos produtos. Produzir marcas. Desenvolver as tecnologias da conservação. Estudqr e promover a qualidade alimentar. Apostar na inovação.

É preciso criar Centros Tecnológicos para o agro-alimentar. É preciso ligar os produtores agrícolas aos Centros Tecnológicos. É preciso que os produtores sejam associados dos Centros Tecnológicos. Para que os Centros Tecnológicos estudem, acolham, valorizem os produtos da terra e inventem soluções para os transformar em produtos de mesa. O resto é trabalho para a agro-indústria.

Nos próximos actos eleitorais, em vez dos tradicionais capítulos com “coisas” sobre a agricultura (precisamos de ir buscar votos aos agricultores), gostava de ver as diferentes candidaturas inserir um capítulo com uma estratégia para a valorização, competitividade e sustentabilidade territorial do Ribatejo como região agro-alimentar.

 

Nélson Carvalho



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