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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01Quem me segue já se habituou a que por vezes as minhas crónicas sejam acerca do património, acerca de lugares que por um ou outro motivo (ou por muitos) marcaram ou marcam a minha vida e a de muitos outros.

Hoje não é diferente. Ao trazer-vos a Igreja do Santíssimo Milagre, o Santuário do Santíssimo Milagre, trago-vos um pouco da história de Santarém e um pouco da minha história.

Desde a sua fundação, no século XIII (mais concretamente em 1241), os séculos passaram por este espaço do centro histórico de Santarém, os séculos alteraram tanto, vendo até um sismo, vendo até um milagre, vendo até a alteração do próprio nome – pois antes chama-se Igreja de Santo Estevão. Desde 1997 que é considerada Monumento Nacional. Santuário do Santíssimo Milagre. Um dos lugares mais antigos do burgo, o local mais alto de Santarém.

Acerca do Milagre, decorria o ano de 1247, quando uma mulher que vivia perto da Igreja, na Rua das Esteiras, querendo acabar com os maus tratos infligidos pelo marido, e aconselhada por uma vizinha, se fingiu doente ao tomar a Eucaristia, escondendo a hóstia sagrada, que deveria depois entregar à dita vizinha.

Ao dirigir-se para casa dessa vizinha, passou pela porta de Santo Estevão. Aqui, notou que a sua roupa estava ensanguentada, precisamente no local onde tinha escondido o pão sagrado. Envergonhada, correu para casa, escondendo tudo numa arca, que fechou à chave. Mas durante a noite, ela e o marido acordaram, pois a casa estava cheia de resplendores e música. Contou ao marido o que tinha feito, ao que de seguida se ajoelharam perante a arca e oraram. Na manhã seguinte, disseram ao pároco o que aconteceu. Este tocou os sinos da torre da Igreja, tornando o Milagre público.

Presentemente, o Santuário acolhe cerca de dezasseis mil peregrinos por ano, portanto, o turismo religioso dá-lhe uma vida em grande escala.

Mas a importância que lhe dou remete também ao próprio edifício. Agrada-me a fachada barroca e em especial o fantástico torreão verde, que ao receber a luz do sol brilha profusamente, convidando-nos a sentir a energia deste lugar único.

Na crónica “Igrejas da minha história…”, de março do ano passado (e como o tempo passa rápido), aqui na Rede Regional, escrevia eu, que “a Igreja do Milagre chega-me como infortúnio. Gosto tanto do local, tão perto de onde vivi uma vida quase que inteira, todos os dias lá passava e a olhava, muitas vezes a indiquei aos turistas, mas sempre ficará para mim o local onde se fizeram velórios de familiares e muitos outros, naquela salinha à esquerda, quando se entra. O resto parece que é esquecido. Ficou-me o cheiro a morte e intenso de coroas de flores. As escadinhas do Milagre contíguas, tantas vezes as subi e desci, para ir à Biblioteca, sempre optei mais por esse percurso do que a descida da estrada.”

Por isto, é que o exterior me dizia tanto e o interior menos. Mas não estando satisfeita, obriguei-me a voltar lá recentemente por várias vezes, a olhá-la com novo olhar, a descobrir novos pormenores, a alterar a história, a dar-nos uma nova oportunidade: desta Igreja para mim e de mim para esta Igreja. E a resposta é sim, funcionou. Na sua arte, no seu silêncio e passos de corredores compridos e na sua luz, descobri uma nova Igreja para mim. Deixei no passado o que a ele pertence e abracei também o interior da Igreja do Milagre. Na vida, tudo acaba por ser muito efémero e na vida nada existe de uma só forma. Apenas construímos situações no nosso cérebro e consideramo-las realidades, vemos as coisas de determinada maneira. E outros fazem exatamente o mesmo, mas de acordo com as suas perspetivas.

Agora já não me cheira a morte, cheira-me à mudança constante da vida. E gosto de observar discretamente os turistas advindos de todo o mundo, gosto de os ver indo pela rua, em filas muito grandes, cheios ora de expetativa e curiosidade, ora saciados de nova informação, levando consigo as provas, em forma de fotografias e memórias, mas sobretudo preenchidos pela vivência da fé. Vêm de Inglaterra, da Índia, das Filipinas, de Espanha, da Irlanda, dos Estados Unidos, de França e de muitos outros países, vêm cada vez mais.

Tenho pena que só venham de passagem para ver o Santíssimo Milagre e apetece-me ir chamá-los para verem o resto da minha cidade, as travessas, os recantos, os painéis, os outros monumentos, a calçada, as vistas...e explicar-lhes que em redor existem outras centenas de maravilhas, nas freguesias em redor, história gravada em lugares e nas gentes, marcada no próprio ar que se respira neste Concelho e que é diferente de qualquer outro, porque cada um tem o seu próprio caráter, a sua própria história...

 



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