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Santana-Maia Leonardo

Santana Maia LeonardoLisboa exerce um poder cada vez mais asfixiante sobre todo o território nacional. E o futebol é sempre o melhor espelho da realidade. Cinquenta anos após o 25 de Abril, os dois maiores clubes da capital continuam a manter cativa a esmagadora maioria da população portuguesa, impedindo que os clubes das cidades médias consigam reunir dentro de portas um número significativo de adeptos capaz de os enfrentar.

À excepção do Porto (a nova Cartago) e de Guimarães (a aldeia gaulesa de Astérix), todas as cidades portugueses continuam a prestar vassalagem a Roma. Na nossa comunicação social, apenas os feitos desportivos dos clubes de Lisboa são valorizados e apresentados como feitos nacionais. Basta comparar a relevância e o destaque dados pela imprensa desportiva da capital à vitória do Moreirense na Taça da Liga, um feito único e provavelmente irrepetível, com os destaques dados às habituais vitórias do SL Benfica na mesma prova. Até a vitória do FC Porto na Liga dos Campeões, o maior feito futebolístico alguma vez alcançado por uma equipa portuguesa, não teve o mesmo tratamento dado às vitórias do Benfica na Taça da Liga, uma competição destinada a rodar as segundas linhas. E mesmo quando se trata da selecção nacional, os atletas e os seus feitos são valorizados de forma diferente consoante o seu clube de origem.

Em Portugal, seja no futebol ou na política, a cor de camisola é o único critério relevante na decisão para os governantes, para os dirigentes federativos, para os árbitros, para os jornalistas e para o cidadão comum, sendo absolutamente irrelevante o mérito e a razão. E num país com esta cultura é absolutamente inútil a defesa da verdade desportiva, uma vez que se trata de um combate que a razão não pode vencer.

E, como se isso não bastasse, a ganância tomou conta da Liga Portuguesa. SL Benfica, Sporting CP e FC Porto já não são apenas grandes superfícies que reduziram todos os outros clubes a pequenas lojas de bairro. Pelo contrário, SL Benfica, Sporting CP e FC Porto são e agem como se fossem os Donos-Disto-Tudo, colocando-se acima das leis, das regras e das próprias instituições de que fazem parte e que controlam, tendo a consciência plena de que, façam o que fizerem, nada lhes pode suceder.

Resumindo, o futebol português vive sob o jugo de uma feroz e sinistra ditadura capitalista. E ditadura capitalista nos dois sentidos: ditadura da capital e do capital.

II

É urgente mudar de novo o formato da Taça da Liga para garantir a presença de Benfica, Sporting e Porto na Final Four, uma vez que o actual modelo, apesar de ter sido viciado para conseguir isso, falhou mais uma vez.

Com efeito, é inadmissível que, na Final Four, não estejam presentes os três únicos clubes representativos de Portugal: BENFICA (o Partido do Povo, perdão, o Clube do Povo), SPORTING (o Clube das Elites) e PORTO (o Clube do Norte). Os outros clubes, que representam a escória, a ralé, os descamisados, ou seja, toda aquela gente miserável que reside em Portugal por especial favor mas que não tem sequer dignidade para fazer parte do povo, porque o povo é do Benfica (como toda a gente sabe), deviam ter direito a disputar apenas o acesso a um lugar na meia-final. E já se podiam dar por felizes!

Sugiro, assim, para o ano duas alterações: 1) Benfica, Porto e Sporting entram directamente na Final Four e só a outra vaga é disputada, no sistema de eliminatórias todos contra todos, pelos clubes da ralé e dos descamisados; 2) E para não se correr o risco de o clube da ralé ir à final, em vez do Partido do Povo, o único clube que vende jornais, o Benfica disputava sempre a meia-final com o clube da ralé, sendo o jogo arbitrado obrigatoriamente por Bruno Paixão.

 

Futebol: Jogo Coruchense x Mondenense | Fotos: João Dinis