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Vítor Hugo Catulo

vitor catulo newKofi Annan, falecido em Agosto deste ano, foi Secretário-Geral das Nações Unidas (ONU) de Janeiro de 1997 a Dezembro de 2006. Quando foi eleito para desempenhar um dos cargos mais influentes do planeta, nutri desde logo simpatia especial por este ganês de boa linhagem e fino porte que nos deixou há pouco tempo. E fascinou-me tal figura quando revelou a intenção de que a Internet e os computadores chegassem gratuitamente aos países pobres de todo o mundo.

Estapafúrdia ideia exclamaram muitos, que brilhante iniciativa, aplaudiram outros como eu.

O pensamento de Kofi Annan baseava-se numa lógica matemática e socialmente correta: o conhecimento faz progredir, ou seja, tal como ele dizia e foi bandeira da sua vida: "o conhecimento é poder, a informação liberta".

Mesmo com fome e com falta de água em milhões de lares, problemas sem soluções à vista, através da Internet para todos, os pobres abririam os seus horizontes, comparariam as suas vidas miseráveis com a dos "outros" e haveriam de exigir dos governantes as necessárias medidas e reformas que lhes melhorasse a vida e lhes mitigasse o sofrimento.

Com a concordância na altura, como seria de esperar, dos colossos da informática, que anteviam no empreendimento negócios de muitos milhões, o projeto do antigo Secretário Geral da ONU não passou disso e acabou por ficar, como vulgarmente se diz, em "banho de gaveta". E porquê?

Porque foram muitos os muros que se puseram entre a ideia do visionário e o oceano de mastodontes, ricos, imensamente ricos, e poderosos que mandam no mundo a na vida das pessoas: os ayatollah's, sempre iluminados por Allah, recitaram trechos do Corão e vociferaram que a "internet para todos" sem seu divino controle, iria permitir que os infiéis do Ocidente minassem as seculares tradições do islamismo e conspurcariam as devotas famílias patriarcais que dirigiam.

Levantaram-se os "bokassas" de África, com contas na Suiça e passeios a Sintra, a gritar NÃO que isso de "inernet para todos" só iria dar força aos "grupos de bandoleiros armados que controlam as populações contra o poder legalmente instituído" (sic).

Lembrando o antigo mundo português de África, cito apenas um exemplo recentemente vivenciado: ao longo da estrada, a uns escassos quilómetros de Maputo, de quem vai para Bilene, estância de férias de referência do tempo colonial, ainda com airosas casas, agora nas mãos da nova burguesia moçambicana, foi-me particularmente confrangedor ver crianças andrajosas, de olhar triste e desconfiado, em idade escolar mas analfabetas, a vender carvão e fruta à beira da estrada. Não deveriam estar na escola, não deveriam essas crianças ter o direito de brincar?

O atual Secretário-Geral da ONU, o nosso português, engenheiro António Guterres, discursou na abertura do Web Summit, Feira de Tecnologia e Empreendedorismo, que decorre em Lisboa. Um acontecimento planetário que põe Portugal no mapa do inesgotável mercado das novas tecnologias e que se irá repetir no nosso país, assim o esperamos, até 2027.

A dado momento disse o engenheiro: "Máquinas que têm o poder de tirar vidas humanas são politicamente inaceitáveis, moralmente condenáveis e devem ser banidas pela Lei Internacional". Referia-se ao desenvolvimento da chamada Inteligência Artificial (IA), uma realidade assustadora, e concordo.

Porém, poderia ter pegado no tema e, já que falava da Paz, deveria ter ido mais longe e retomar a necessidade da implementação da Internet para todos, tendencialmente gratuita nos países pobres.

Poderia ser que, desta vez, conseguíssemos abrir algumas cabeças e minimizar o sofrimento de milhões através do conhecimento a da informação.

Retirando da gaveta o projeto visionário de Kofi Annan, e pondo-o em execução, Guterres prestaria um justo tributo à sua memória e daria início a uma nova era abrindo caminho a um modelo de paz, desafiador, e de desenvolvimento igualitário nunca antes visto. Não há outro caminho: só o conhecimento e o domínio da informação derrubam muros.

 

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves