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Jerónimo Jorge

jeronimo jorgePor estes dias, o Facebook, e demais redes sociais, encheu-se de pessoas a mostrar o momento em que colocam a estrela, ou anjo, no topo da árvore de Natal.

Na maioria das vezes são as crianças que colocam “a cereja no topo do bolo”, que em termos natalícios americanos é colocar a estrela maior ou o anjinho no topo do abeto, depois de este estar decorado com os enfeites, religiosamente, guardados de ano para ano.

Mas eu tenho outras memórias da preparação do Natal. Quando era criança aguardava, “em pulgas” pelo 8 de Dezembro. Era por alturas do segundo feriado do início do último mês do ano que tinha “autorização” para montar o presépio, que o “pinheiro” de Natal era muito menos importante. O presépio, esse sim, era “obra” para um dia inteiro de “trabalho”. Não havia playstation, tablet’s ou tão pouco 90 canais de televisão.

Era um dia de azáfama infantil. O primeiro passo era na véspera de tão ansiado dia ir buscar a caixa de sabão em pó, uma espécie de cilindro, que tinha depositado o espólio de bonecos de barro lá de casa. Cada peça estava embrulhada em papel de jornal, para evitar que se quebrassem. Ah, havia sempre um ou dois “bonecos” novos para aumentar o número de actores.

A minha avó ou a minha madrinha lá iam na conversa e uns tempos antes compravam mais umas peças para acrescentar ao lote que já existia.

presepio

Mas voltemos ao ponto de partida. Todas as peças eram retiradas dos papéis e dispostas em linha. A virgem Maria, o José, o Menino Jesus e a manjedoura amarela, o burro e a vaca, os reis Magos. A secção do menino Jesus estava completa. Vinham depois uma dezena de ovelhas e o pastor, o moinho e a moleira, a ponte, a casa, a igreja, o castelo, o poço, mais dois ou três bonecos para compor o cenário e dar “vida” ao palco.

O segundo passo era uma “guerra” com a mãe: que espaço podia ocupar para instalar “a obra”. Por mim era a sala inteira. Pela minha mãe era um canto. A conversa redundava sempre num amuo da minha parte, descontente com o pouco espaço que me era reservado.

O terceiro passo permitia sempre fazer passar o amuo anterior. Tinha de ir ao musgo, ali “à chã da cabeça” e tinha de convencer o meu avô a ir comigo. Primeiro porque a minha avó via sempre perigo em deixar o menino ir sozinho, depois porque era preciso trazer um “pinheirito” para “transformar” em árvore de Natal. Depois de convencido o avô lá íamos, antes do almoço, à mata à “caça” do musgo.

Os melhores locais onde apanhávamos enormes “mantas” de musgo verde era nas zonas mais húmidas dos sobreiros. Perto de rochas. Com ajuda de uma “colher de pedreiro” do meu avô lá enchíamos dois sacos com enormes pedaços de musgo verde. Depois ainda encontrava um diferente. Era num verde quase branco e com uma altura maior. Levava sempre uns bocados desse musgo branco.

Apanhado o musgo o meu avô lá escolhia dois pinheiros. Sim, não havia crises como hoje com as matas. Íamos a zonas onde os pinheiros precisavam se ser desbastados e, na sua sabedoria, o meu avô explicava-me: “Aqui vemos qual o pinheiro mais forte e mais direito. Esse fica cá. Cortamos ao lado. Vês. Assim vamos dar-lhe mais espaço para ele crescer mais forte e mais depressa.”

Depois de cortados os pinheiros, a minha árvore de Natal e a da minha avó, regresso a casa, já perto da hora de almoço. Ainda havia uma coisa importante e era o meu avô a resolver. Arranjar um plástico para colocar no chão da sala para que a humidade do musgo não estragar os tacos.

O terceiro passo vinha depois do almoço. Sempre entusiasmadíssimo, ia arranjar o resto dos componentes. Uma caixa de papelão grande para a base do presépio, onde depois iria ser colocado o plástico.

Negociado o espaço com a minha mãe, eu achava sempre pouco e ela achava sempre que era grande demais, era encontrar uma caixa ou umas “lages” para fazer a casa ou gruta onde estaria a manjedoura. Areia para os caminhos e estradas do presépio. Pedras ou pedaços de tijolo para fazer o “monte”. E as pratas dos chocolates bem alisadas para fazer a água do rio e o lago. Sim havia sempre isto tudo, por isso precisava de muito espaço.

O quarto passo era a disposição de tudo. Primeiro colocava a casa onde ia “nascer” o menino Jesus. Tinha de ter o espaço para levar o burro e a vaca, a manjedoura com o Menino e o José e a Maria. Depois criava a montanha, do outro lado da “cabana”. Antes de espalhar o musgo, qual arquitecto paisagista colocava as pratas desde a montanha até ao lago, criando o rio. A seguir vinha o musgo. O branco, menos moldável era o topo da montanha e mais uns “tufos” a meio. Era a zona de neve. E não, não me interessava se em Belém havia ou não neve. No meu presépio havia.

A seguir, o musgo era, cuidadosamente, colocado pelo plástico. Depois de disposto fazia um olhar clínico para procurar espaços que tivesse ficado vazios. Tapava-os com as sobras.

O quinto passo era o que mais gostava. Depois da análise cuidada de que a “base” estava tal como eu pretendia, colocava as peças de barro. Começava sempre pela vaca e pelo burro. Depois a manjedoura, com umas palhinhas, o José e a Maria. Dispunha as ovelhas pelo monte e algumas perto do local do nascimento. O pastor estava já perto do local de nascimento. A seguir criava o caminho lá “de longe” da montanha com areia por cima do musgo. Colocava a ponte sobre o rio. Fazia uma bifurcação no caminho para a cidade. Depois para o monte e outra para o local do nascimento. No monte ficava o moinho e a caminho deste a moleira. Na aldeia dispunha o poço, a igreja, a casa e os demais “habitantes”. No lago dois patos. No caminho para a “gruta” colocava os reis Magos em cima dos camelos: Gaspar, Melchior e Baltasar.

O sexto passo era com a minha mãe. Colocar o pinheiro num vaso com areia. Este era forrado e colocado perto do presépio. Nunca liguei à decoração do pinheiro. Deixava a colocação das fitas brilhantes, das bolas e sinos, para a minha mãe. Só colocava uma coisa. E não, não era a estrela no topo. Aquilo que queria colocar era as luzes. Porquê? Porque uma ou duas tinham de descer à gruta para iluminar a manjedoura, quais archotes daqueles tempos.

O sétimo passo, depois de tudo concluído e de chamar todos lá em casa para poderem ver e elogiar o “meu” presépio, era colocar-me de joelhos e, cuidadosamente, esticar-me sobre a “obra” e colocar a última peça de barro no seu sítio. Ia colocar o Menino Jesus na manjedoura com a palha.

Depois, após escurecer, ficava tempos infinitos a apreciar o trabalho “árduo” que tinha tido ao longo do dia e, a espaços, a imaginar a vida naquele espaço. Ou se tivesse sido mesmo assim, tal como eu ali tinha imaginado.

Ao lado do presépio iria colocar, na tarde de 24 de Dezembro, o sapatinho para que o Menino Jesus, quando nascesse, ali depositasse as prendas. E sim, era o Menino Jesus que distribuía as prendas. O Pai Natal de chocolate era mais uma figura decorativa do pinheiro que “comia” no dia 25 de Dezembro.

O presépio, que todos os dias eu fazia questão de ver, ficava montado até ao dia 7 de Janeiro. Após o dia de Reis já não era eu quem desmontava. Ou havia escola ou não tinha a mesma piada. E ouvia todos os anos a mesma conversa da minha mãe, a aposto que de todas as mães: “Para montar não para, mas para arrumar já sou eu, já não queres saber.”

Era assim. É assim ser criança. Por isso, volto ao início destas linhas, se colocasse uma foto no Facebook, ou noutra rede social, não seria a colocar a estrela na árvore de Natal, mas sim, de joelhos, esticado sobre um presépio a colocar o Menino Jesus na manjedoura, no local onde haveria de nascer a 25 de Dezembro.

Seja com presépio, árvore de Natal, estrelas ou anjinhos, que sobrevivam as tradições e, acima de tudo, os valores desta quadra. Sejam quais forem, de acordo com as ideologias, crenças, fé ou opiniões de cada um.

Jerónimo Belo Jorge

Simulacro da Proteção Civil no Entroncamento - Fotos: José Neves