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Susana Veiga Branco

Susanaveigabranco01Muitos podem escrever enquanto alunos do Liceu de Santarém, ou a atual Escola Secundária Sá da Bandeira, mas nem todos. Eu tenho esse privilégio e vou aproveitá-lo.

Foi e sempre será o meu Liceu. Curioso, que sempre gostei dele, desde o edifício (na altura não era assim amarelo), à localização, às salas de aula (sobretudo as de ciências; as que gostava menos eram as em anfiteatro, onde tinha Física e Química, não sei bem porquê).

Naquela altura dissecavam-se rãs, naquela altura corríamos com receio de quem se escondesse nas encostas entre o Convento de Sta Clara e o liceu e tínhamos medo de rodear a escola.

Naquela altura tinha-se muita esperança de entrar em cursos com média de 19 e 20 e que por isso eram impossíveis, mas a esperança não morria.

Naquela altura os corredores pareciam muito largos e os professores eram muito mais distantes, naquela altura...e é aqui que nos damos conta de falarmos com expressões “naquele tempo” e “no nosso tempo”.

As minhas memórias obviamente que não são dos cem anos em que o liceu funcionou no Seminário nem de quando foi inaugurada a sua edificação em S. Bento, em 1943, mas também não são desde as últimas remodelações, em 2009. São de algures no tempo, não interessa quando. Interessam mas memórias.

No outro dia voltei ao Liceu, coisa agora de mãe. Embora com a remodelação feita, não há volta a dar: o Liceu é o Liceu. Imponente, histórico, altivo, magnífico. Mas os corredores parecem-me tão estreitos e as escadas também... curioso, de tudo, o que me saltou aos olhos de adulta foram os corredores. Porquê não sei. Mas sei que me revi nas aulas de geografia, de filosofia, de matemática e de tantas outras disciplinas.

Lembrei-me daquela aula terrível em que só tive lugar no fundo da sala e o professor me questionou sobre o problema no quadro e não sabia a resposta porque nem sequer o problema. Não conseguia ler e calei-me, sem saber o que era aquilo. Aquilo era miopia. Como é possível que ao sermos jovens haja vergonha de coisas tão simples como dizer que não conseguimos ver?

Enfim, era o tempo das sabrinas e das All Stars, das calças de ganga e da abertura da Benetton em Santarém, das saias calção que se mandavam fazer à costureira e de cabelos compridos com franja.

A minha hora de almoço era passada a atravessar o centro histórico para lá e para cá, almoçando em casa, mas valia a pena, afinal, o centro histórico sempre foi a minha casa, inerente a mim.

À tarde, com mais tempo e cansaço, de passagem no Supermercado do papagaio, o Supermercado Venceslau, era parar ocasionalmente para comprar um pacote de batatas fritas; na sapataria Royal, para ver os sapatos caríssimos; passar pela Bijou, pelo Café Central, pela Ourivesaria Santos, pelas retrosarias com tecidos nas montras e bancadas corridas de madeira; parar na Ucal para beber um batido de morango; ir comprar material à Livraria Escolar; à Trifoto revelar rolos de 12, 24 ou 36 fotografias... e tantas outras referências inquestionáveis, algumas já desaparecidas no tempo, outras mudadas.

Não havia Shopping nem hipermercados.

Agora “passei a pasta do liceu” para a minha descendência. Tudo passa, gerações atrás de gerações, mas o liceu continua. Também a minha mãe lá estudou. Vamos em três gerações a estudar no liceu.

Ainda encontro regularmente a minha professora de francês, que já não dá aulas, mas está igual. De resto, perdi a ligação. Mas não estas memórias que vos conto.

E quanto mais escrevo, mais corredores me lembro. Mas afinal que história é esta dos corredores que irrompem pela minha mente? O aguardar do toque, de professores, do mundo de informação ainda fechado nos livros? Talvez...ou labirintos e expetativas, como a vida. No caso do liceu, são 175 anos, são muitas vidas, são muitos alunos a poderem dizer: o meu liceu...

 

Partida em Coruche do Grande Prémio de Ciclismo Abimota - Fotos: João Dinis